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QUINTA DOS BICHOS: O Monge e O Passarinho

QUINTA DOS BICHOS

Um blogue por amor aos animais e à criançada, uma simples homenagem a todos eles que por cá andam como nós e que nasceram para ser felizes, tal como nós! Mas neste espaço falar-se-á igualmente de coisas que a todos dizem respeito. A Quinta quer ser alegre e apelar à vida, lutar pelo direito à felicidade! Jorge,o Mocho-Real. 1ªpublicação em 6 de Abril,2006 PARA TI CLOÉ

domingo, setembro 10, 2006

O Monge e O Passarinho

Uma história do padre Manuel Bernardes



Estando um monge em matinas com os outros religiosos do seu mosteiro, quando chegaram àquilo do salmo onde se diz que mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem, que já passou, admirou-se grandemente, e começou a imaginar como aquilo podia ser.
Acabadas as matinas, ficou em oração, como tinha de costume, e pediu afectuosamente a Nosso Senhor se servisse de lhe dar inteligência daquele verso. Apareceu-lhe ali no coro um passarinho que, cantando suavíssimamente, andava diante dele dando voltas de uma para a outra parte, e deste modo o foi levando pouco a pouco até um bosque que estava junto do mosteiro, e ali fez seu assento sobre uma árvore, e o servo de Deus se pôs debaixo dela a ouvir .
Dali a um breve intervalo (conforme o monge julgava) tomou o vôo e desapareceu com grande mágoa do servo de Deus, o qual dizia, mui sentido:
-- Ó passarinho da minha alma, para onde te foste tão depressa?
Esperou. Como viu que não tornava, recolheu-se para o mosteiro, parecendo-lhe que aquela mesma madrugada, depois das matinas, tinha saído dele. Chegando ao convento, achou tapada a porta, que dantes costumava servir, e aberta outra de novo em outra parte. Perguntou-lhe o porteiro quem era e a quem buscava.
Respondeu:
-- Eu sou o sacristão, que poucas horas há saí de casa, e agora torno, e tudo acho mudado!
Perguntando também pelos nomes do abade, e do prior, e procurador, ele lhos nomeou, admirando-se muito de que o não deixasse entrar no convento, e de que se mostrava não se lembrar daquele nomes. Disse-lhe que o levasse ao abade; e, posto em sua presença, não se conheceram um ao outro, nem o bom monge sabia que dissesse ou fizesse, mais que estar confuso e maravilhado de tão grande novidade.
O abade então, alumiado por Deus, mandou vir os anais e histórias da Ordem, onde, buscando, e achando os nomes que o monge apontava, se veio a averiguar com toda a clareza que eram passados mais de trezentos anos, desde que o monge saíra do mosteiro até que tornara a ele.
Então este contou o que lhe havia sucedido, e os religiosos aceitaram-no como a irmão seu do mesmo hábito. E ele, considerando na grandeza dos bens eternos, e louvando a Deus por tão grande maravilha, pediu os sacramentos e brevemente passou desta vida, com grande paz em o Senhor.


Escritor moralista, religioso e pregador, nascem em Lisboa em 1644. Frequentou o colégio jesuíta de Santo Antão seguindo depois para a Universidade de Coimbra, onde obteve o grau de mestre em Artes e de bacharel em Teologia e Direito Canónico. Entrou para o sacerdócio, conseguindo tal reputação que D. João de Melo, bispo de Viseu, o elegeu seu confessor.Em 1674, desejando isolar-se, entrou para a Congregação do Oratório, no convento do Espírito Santo, em Lisboa. Aí viveu durante 36 anos, dedicando-se à oração e à composição das suas obras, através das quais procurava exercer uma acção moralizante, usando a crítica de costumes e o apelo à emoção mais do que o desenvolvimento intelectual da doutrinação. Transparece nos seus escritos um espírito crédulo e pacífico, capaz de transmitir a espiritualidade da vida contemplativa num estilo literário simples e elegante, em plena época do
barroco. Entre as suas obras principais contam-se Exercícios Espirituais e Meditações da Via Purgativa (1686), Pão Partido em Pequeninos para os Pequeninos da Casa de Deus (1696), Luz e Calor: Obra Espiritual para os Que Tratam do Exercício de Virtudes e Caminhos da Perfeição (1696), Armas de Castidade (1699), Meditações sobre os Principais Mistérios da Virgem Santíssima (1706), Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas (cinco volumes publicados em 1706.1708,1711,1726 e 1728 respectivamente), Sermões e Práticas (1711), Direcção para Ter os Nove Dias de Exercícios Espirituais (1725), Os Últimos Fins do Homem (1728) e Estímulo Prático Para Seguir o Bem e Fugir do Mal (1730).
Tio Jorge 10.09.2006

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Ando a visitar os teus restantes blogues para me inteirar, e o resultado é sempre o mesmo: qualidade e diversidade de braço dado com o bom gosto, e até uma pitada de alegria. Lindo e atraente. Não resisto, nem quero, claro…

8:29 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Ando a visitar os teus restantes blogues para me inteirar, e o resultado é sempre o mesmo: qualidade e diversidade de braço dado com o bom gosto, e até uma pitada de alegria. Lindo e atraente. Não resisto, nem quero, claro…

8:31 p.m.  
Blogger Jorge P. Guedes said...

Meu querido amigo, mas isso é uma honra máxima!
Que simpáticas palavras!
Espero ser sempre merecedor de tão reconfortantes loas!
Tenho sempre a preocupação de informar, avisar e divertir, lançar pistas que quem me lê possa desenvolver por si.
É defeito profissional de professor, sabe?
Pela nossa amiga MPS, fiquei inteirado que esta já há dias se dirigiu às "Iluminuras" e por lá se demorou bem mais do que previra.
NÃO É DE ADMIRAR! BELO TRABALHO!

Um abraço e muito obrigado.
Há, já agora 2 artigos fresquinhos no Sino e no Recantos da Terra.

Por favor mande-me o seu e-mail.
O meu é jorgegued@gmail.com

8:42 p.m.  
Blogger Jorge P. Guedes said...

Acho que pouca gente a conhecerá, infelizmente.

Ainda bem que ela te transportou no tempo.

Um bjnh.

Jorge

10:06 p.m.  

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